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SUICÍDIO

Minha tia de 87 anos se suicidou. Era solteira, sem filhos e avessa às relações afetivas. Morou a vida inteira com minha mãe, de modo que nós crescemos com ela. Um domingo de sol, ela pulou pela janela do sexto andar do prédio. Por mais que eu procure saber o porquê, eu não entendo. Minha mãe e minha irmã, que estavam no apartamento no momento do drama, estão “passadas”.

Preciso encorajá-las, mas não consigo. Tenho uma relação muito ambivalente com o suicídio da minha tia. Por um lado, o fato de ela não ter pensado nas conseqüências para a família me dá ódio. Por outro, sinto que não levei em conta os sinais de precisar de ajuda que ela dava.

Gostaria de entender melhor as razões do ocorrido para sair da situação em que estou.

 

 

Sua tia pode ter se suicidado porque estava deprimida ou por ter ouvido uma voz que mandava pular pela janela. E também pode ser algum outro motivo, que um exame psiquiátrico realizado antes do drama teria revelado. Só que ela não foi examinada e, como os mortos não ressuscitam, não podemos saber o verdadeiro motivo.

Para levar em conta os sinais que alguém dá, é preciso estar apto a captar a mensagem e você não tem culpa pela sua inaptidão. Nem tudo se pode, como diz Denise Milan(80). Quanto ao seu ódio, ele é decorrente da idéia de que a sua tia poderia ter evitado se atirar pela janela para poupar a família. Ela possivelmente não tinha mais condições de viver sem ajuda e não é razoável culpá-la pela defenestração. Sua tia é antes digna de pena.

O suicídio é aterrador por dois motivos. Primeiro, pela violência que a pessoa faz contra si mesma. Segundo, pelo que ela, consciente ou inconscientemente, faz com os outros. A sua morte surpreende como a morte por acidente – considerada a pior de todas, segundo Philippe Ariès(81), o especialista da questão. O efeito do suicídio é o mesmo do knock out.

 

NEM TUDO SE PODE

 

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