Tenho vocação para a tristeza mas acredito demais na alegria

Não sei quem é o autor desta frase que eu escrevi e atribuí ao personagem João no romance O clarão. Ana, a heroína do romance, vê um palhaço que se equilibra sobre duas pernas de pau enquanto um menino brinca de puxar a perna da calça dele. Ninguém passa sem rir da cena. Ana se lembra da frase de João e entende por que ele é tão popular. Nada é mais importante do que a alegria, que é um recurso tão vital quanto a amizade.

João é um personagem inspirado no meu amigo Carlito Maia, grande publicitário e frasista brasileiro, que, numa certa altura da vida, se tornou afásico. Um homem para quem a palavra era essencial! Nada podia ser pior para ele do que perder a possibilidade de falar. Para ele e para mim, que gostava de conversar com Carlito. Só me conformei escrevendo o romance, me valendo da escrita, que alegra e faz viver.

nadinha

Tive o sentimento de que o teatro francês renasceu com a peça de Olivier Py, Orlando ou a impaciência, que faz a apologia da alegria e da juventude eterna. Diz que esta depende daquela.

Tenho certeza de que é verdade, pois sei de um homem que dizia conversar com as células cancerosas do seu corpo e fazer as células rirem. Resistiu dez anos a um linfoma grave e morreu jovem com 78 anos. Acho que é possível ser jovem até o último dia. Para tanto, é preciso desacreditar da idade e nunca, nunca proferir a frase: “Com a minha idade”.

Wassily Kandinsky, “Céu azul” (detalhe), óleo sobre tela, 1940

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