consulta com Betty Milan

A MORTE PODE NOS GUIAR

Conheci um rapaz com quem eu me relacionei sem transar. Ele não queria maior compromisso. Um dia me apresentou o irmão, que eu namorei durante três anos. Até que este morreu de acidente de moto. Dois meses depois do acidente, o irmão vivo se declarou, dizendo que gostava de mim. Ficamos juntos e eu tenho um bebê de 1 ano.

Não sei se gosto do pai do meu filho, pois nunca pensei nele quando namorava o irmão morto. Tinha tesão, é bem verdade, mas era só. Nossa história sempre foi confusa. Não assumimos o nosso relacionamento até o dia em que engravidei. Durante a gravidez, ele ficou noivo e me deixou sozinha. Daí, quando eu dei à luz, se aproximou de novo. Estamos tentando nos relacionar. Porém, não sei se vejo nele o homem da minha vida ou se vejo nele o irmão que morreu.

 

Você quer um parceiro que seja o homem da sua vida. Só que, desde que conheceu os dois irmãos, está envolvida com dois homens. Foi o irmão vivo que te apresentou ao irmão morto. Quando namorava este, tinha atração por aquele. Agora, se pergunta qual dos dois realmente ama. Se acaso está com o vivo por ver nele o morto.

Nos três momentos, você esteve numa situação triangular e não há mal nisso. Só que não te convém. Você talvez esteja no triângulo por desejar o impossível. Por que é assim eu não sei. Só dá para saber através de uma análise da sua história.

Agora, quer você consiga viver com o atual companheiro, quer não, é bom não esquecer que ele é o pai do seu filho e você deve ter com ele uma relação que não impeça o menino de ter um pai. Do contrário, o prejudica e acaba sofrendo com isso.

A palavra filho é sinônimo de responsabilidade. E, como “filho de peixe é peixinho”, quando os pais não são responsáveis, os filhos em geral também não são. Ficam sujeitos à falta de limite em relação a si mesmos e aos outros. Não sabem o que é a prudência e vivem expostos ao acidente. Podem se deixar tentar pelo crime.

Você perdeu o namorado num acidente de moto. Pode tirar dessa experiência trágica um ensinamento fundamental e se tornar tão responsável em relação ao seu filho quanto ele precisa para se desenvolver amando a própria vida. A morte pode nos guiar. Quem a tem em mente, aprende a cuidar dos outros e de si.

Como diz Sêneca nas Cartas a Lucílio, a sua obra-prima, citada 300 vezes por Montaigne nos Ensaios, “cada dia, cada hora nos mostra o nada que nós somos e nos lembra, por alguma prova nova, a nossa fragilidade esquecida”.

 

Publicado em Quem ama escuta