consulta com Betty Milan

Luto

Há três meses eu perdi a pessoa que mais amei. Foram quatro anos de companheirismo e cumplicidade. De repente, uma doença estúpida e ele morre.

Não ficou nada por se dizer ou por fazer. Nós não desperdiçamos o tempo, aproveitamos cada minuto. Mas ele era o meu porto seguro e eu estou sem rumo. Como conviver com a perda? Que vida é essa? Que Deus é esse que não ouve? Que esperança eu posso ter agora?

 

Como conviver com a perda? Como o cantor Roberto Carlos com a perda de Maria Rita: cantando quem se foi, exaltando o amor. Roberto Carlos não cantou a esposa morta desesperadamente por ser masoquista, mas porque, ao cantá-la, fazia sua amada de novo existir, tornava-se menos infeliz. Dessa forma, ele negava a morte e se esquecia momentaneamente da sua condição de viúvo. O romantismo tornava a sua existência possível. Melhor um amor infeliz do que amor nenhum.

O nosso trovador se inscreve na tradição do rei de Portugal, D. Pedro I, que eternizou Inês de Castro, sua esposa secreta assassinada por D. Afonso IV – o próprio pai de D. Pedro I. Para fazer a glória de Inês, o rei fez da morta uma rainha. Assim que o pai morreu, mandou que desenterrassem o cadáver da amada e o assentou num trono, obrigando a nobreza a se apresentar diante de Inês e beijar-lhe as mãos. Por fim, construiu um túmulo grandioso em Alcobaça, uma das obras-primas da arte medieval.

O amante eterniza o amado para eternizar o amor e com isso suportar a perda. Porque o amor propicia a renovação da vida, que precisa dele para vingar. Você perdeu o seu amado, não perdeu o amor, que é uma fonte contínua de esperança, um porto seguro ao seu alcance.

Vá em frente cantando o que passou, os quatro anos que valeram ter vivido. Siga com um poema de Camões, que pode servir de alento: “Amor é fogo que arde sem ver / é ferida que dói e não se sente”. E sobretudo não tenha medo do ridículo.

Caminhando você há de encontrar um novo caminho.

 

SEM AMOR NÃO HÁ ESPERANÇA

Publicado em Fale com ela